quinta-feira, 5 de julho de 2007

Sócrates, Barroso e Lula participam em debate sobre biocombustíveis

A propósito deste debate ouvi ontem na RTP, Lula e Sócrates falarem sobre biocombustíveis.

O nosso primeiro-ministro disse que os biocombustíveis são uma opção fundamental por três razões que passo a citar:

1) São o instrumento mais poderoso para reduzir as emissões de Co2.

2) Ajuda a reduzir a dependência energética do exterior.

3) Ajuda os países menos desenvolvidos a terem um mercado agrícola.

Lula afirmou que a aposta neste tipo de combustíveis era fundamental para promover o desenvolvimento rural já que:

"Por cada trabalhador numa fábrica de transformação há 1000 trabalhadores no campo."


Que Lula veja na aposta massiva nos biocombustíveis, uma forma de criar mercado para os seus produtos agrícolas, é fácil de entender. O Brasil continua a ter um enorme êxodo rural, milhares de pessoas que partem todos os anos para as grandes cidades à procura de emprego, Estas são cada vez maiores e mais difíceis de gerir. A criação deste novo mercado pode ter um papel importante para estancar estes fluxos de população.
Já a posição do nosso primeiro parece-me muito mal fundamentada, porque

1) Não é nada claro que os biocombustíveis sejam o "instrumento mais poderoso para reduzir as emissões de Co2". É verdade que a queima destes combustíveis só liberta o Co2 absorvido durante o crescimento da planta do qual foi extraido. Mas para cultivar estas plantas é preciso ter grandes quantidades de terra, e isso normalmente significa desflorestação. E a desflorestação é um dos "intrumentos mais poderosos" para aumentar o Co2 na atmosfera.
2) Dizer que os biocombustíveis ajudam a reduzir a dependência energética do exterior é pelo menos controverso. A mim parece-me que vamos deixar de importar petróleo para passar a importar biocombustíveis.
3) Sim é verdade cria um mercado agrícola para os países menos desenvolvidos. Mas também cria outro problema, a aposta global nos biocombustíveis tem levado a que alguns produtos agrícolas tenham aumentado muito o seu preço, criando sérios problemas aos mais pobres que deixaram de puder comprar produtos essenciais para a sua alimentação.

Eu não demonizo os biocombustíveis, acho que são uma tecnologia que deve ser desenvolvida e utilizada com ponderação. Mas este discurso de que os biocombustíveis vão substituir o petróleo, serve para os políticos dizerem às pessoas que podem manter o seu estilo de vida inalterado, o que não me parece que seja verdade.

12 comentários:

José Silva disse...

Leiam também este artigo:
http://www.greenpeace.org.uk/blog/climate/biofuels-green-dream-or-climate-change-nightmare-20070509

José M. Sousa disse...

http://www.foreignaffairs.org/20070501faessay86305/c-ford-runge-benjamin-senauer/how-biofuels-could-starve-the-poor.html

Cláudia disse...

Relacionado com a produção de biocombustíveis, no Público:

Uma operação do Ministério do Trabalho, em parceria com a Polícia Federal, libertou 1108 trabalhadores em situação análoga à do trabalho escravo numa fazenda de cana-de-açúcar no Pará, voltada para a produção de etanol.

MiguelT disse...

Embora não tenha visto a intervenção de Sócrates, depreendo pela descrição que ele não terá grande conhecimento de causa e se limitou a proferir uns quantos lugares-comuns simpáticos sobre o assunto. Penso que a simpatia do primeiro-ministro pelos bio-combustíveis, se calhar, se fica a dever apenas ao prefixo bio-, que dá um aspecto "new-age" e amigo do ambiente. Mas, de facto, se formos a pensar nisso, o petróleo também é ele próprio um produto natural... e embora os bio-combustíveis libertem o CO2 absorvido pelas plantas de que provêm, a desflorestação (tal como é referido) assim como o uso de fertilizantes, poderão libertar quantidades apreciáveis de CO2. Numa categoria à parte estão aparentemente as tecnologias que não implicam de todo combustão, como a electricidade ou as pilhas de hidrogénio, mas é necessário ter em conta que o fabrico ou a reciclagem das baterias eléctricas ou das referidas pilhas poderá implicar libertação de CO2. O desafio tecnológico será, portanto, desenvolver fontes de energia e métodos de fabrico que consigam reduzir ao máximo a produção de CO2 (e outros tipos de "poluição") ao longo de toda a sua cadeia de vida.

José M. Sousa disse...

Sobre os biocombustíveis e o CO2:

http://www.timesonline.co.uk/tol/news/uk/article1909827.ece

José M. Sousa disse...

Do ponto de vista do Brasil, não me parece sequer que os biocombustíveis possam contribuir para estancar o êxodo para as grandes cidades. O que o Brasil precisa é de uma reforma agrária à semelhança do que fez a Índia, e não de mega explorações agrícolas para exportação onde, em alguns casos, persiste a escravatura.

«Today, 47 percent of Brazil's land is owned by just 1 percent of the population, making the country's land distribution the second most unequal in the world.»

Os efeitos da Produção da cana-de-açucar:
http://www.landaction.org/gallery/cartilhaRedeEmIngles.pdf:

The expansion of
the sugarcane industry
has brought serious
consequences, such as
violations of workers’
rights and environmental
devastation. The agricultural
model based on
monoculture for export
contradicts the proposals
to guarantee food
sovereignty and agrarian
reform. The expansion of
this crop in agricultural
frontier areas generates
violence against
indigenous peoples and
small farmers.

José Silva disse...

Certo. Mas no caso do Brasil, eu consigo antever ganhos económicos com
a criação de um grande mercado de bio-combustíveis. Já o nosso país...

José M. Sousa disse...

O problema não está nos ganhos económicos em si, mas quem,quantos, e como vai retirar daí benefício. Quanto a Portugal, a beterraba e o milho seriam as matérias primas para os biocombustíveis:

http://www.agroportal.pt/x/agronoticias/2006/10/30g.htm

«Quem mais expectativas tem alimentado em Portugal é precisamente o milho. Conjuntamente com a beterraba, ambas de regadio, são indicadas por estudos do Ministério da Agricultura como as culturas com mais potencial.» in Público

José M. Sousa disse...

Eu percebo o que queres dizer, mas a lógica deles é a mesma que a nossa: fazer dinheiro depressa, invocando um "bom" motivo, e que vier a seguir que se aguente!.

Nós até estamos a desenvolver uma marca de biocombustíveis, a Prio:

http://www.martifer.com/Group/PT/HomePT.html

José M. Sousa disse...

http://www.priofuels.com/

Anónimo disse...

Bio-combustível é mais um modismo. O que precisa ser modificado é a dependência de máquina térmicas de baixo rendimento (motores de combustão interna).
Agora, comparando com a queima de hidrocarbonetos, é sim melhor, menos poluente.
Aqui, no Brasil, vivemos um boom na indústria sucro-alcooleira e já se fala em diminuição da área plantada para alimentação.
A opção por bio-combustíveis não vai fixar as pessoas no campo, mesmo porque, as lavouras são extensivas, não cabendo muito espaço para o pequeno agricultor.

:) disse...

Bem-vindo Renato! Confesso que faz-me muita confusão a substituição das áreas afectas à produção de alimentos por áreas destinadas aos bio-combustíveis. Vamos pagar mais caro por um pão, por um prato de sopa...e como disse o zé "a aposta global nos biocombustíveis tem levado a que alguns produtos agrícolas tenham aumentado muito o seu preço, criando sérios problemas aos mais pobres que deixaram de puder comprar produtos essenciais para a sua alimentação."
Pela Europa começam a ser subsidiadas... este é um exemplo (confesso que a este achei alguma graça)
http://www.spiegel.de/international/business/0,1518,478901,00.html
http://www.pr-inside.com/trouble-brews-in-germany-as-biofuel-r136539.htm